“DUAS MEIAS POR UMA INTEIRA”
Sylvia Carvalho
Correr uma maratona não é fácil, mas é perfeitamente possível, desde que se tenha em mente alguns princípios básicos: disciplina, dedicação, tempo disponível para realizar o treinamento, orientação adequada e muita força de vontade. Esses ingredientes são fundamentais e a falta de um coloca em risco o sucesso de todo um trabalho.
A princípio, o objetivo era a Maratona de Roma, no dia 18 de março, mas tive que abandonar a idéia. A temporada de 2006 não havia sido fácil. Foram duas maratonas - Paris e Nova York - três meias maratonas, revezamentos e uma infinidade de provas de 10 km. Eu precisava de férias e de um período de descanso. E me permiti isso. Aproveitei as festas de Natal e a primeira quinzena de janeiro para curtir as praias e o sol do Nordeste num clima de total relaxamento.
Não havia tempo suficiente para o treinamento e seria uma imprudência participar de uma maratona sem preparação. Foi então que recebi uma proposta que me pareceu irrecusável. Por que não trocar uma inteira por duas meias? E onde seriam? Lisboa e Praga. Nada me pareceu mais perfeito. Fiquei com água na boca. Conversei com o Mestre Laurent, adaptamos as planilhas, arrumei as malas e lá fui eu para mais uma aventura com a minha companheira Elizeth.
Lisboa é cheia de encantos, charmosa, romântica. É muito agradável caminhar por suas ruas e conhecer de perto - ao vivo e a cores - locais que fazem parte da nossa história e que tanto ouvimos falar nos tempos de estudante. Eu me senti em casa e totalmente à vontade, como se estivesse resgatando minhas raízes. Além de passear muito e conhecer os pontos turísticos, também fomos a Fátima, Nazaré, Batalha, Sintra, Queluz, Cascais, Estoril e Óbidos. Uma verdadeira viagem ao passado.
Mas tinha uma competição pela frente e acho que só me dei conta quando pegava o comboio (trem) em direção à largada, na Ponte 25 de Abril, sobre o Rio Tejo. Trinta e seis mil pessoas - esse foi o número divulgado. Mas não eram todos corredores da Meia Maratona. Além da competição principal realiza-se ao mesmo tempo uma prova de 10 km e uma caminhada, onde participam pessoas de todas as idades, de bebês de colo a vovôs e vovós. Uma confusão generalizada. “Onde será a nossa largada?” Ninguém para informar. Foi quando descobrimos uma abertura na cerca por onde passavam atletas portando números com a mesma cor dos nossos. Aliás, uma curiosidade: lá os números de peito chamam-se “dorsais” e são pregados nas costas. Fiquei imaginando como os fotógrafos devem ficar malucos para identificar os corredores. Enfim...
O dia havia amanhecido ensolarado, mas soprava um ventinho frio quando deixamos o hotel. Uma segunda pele e uma camiseta de mangas compridas seriam suficientes para me manter aquecida. Mas a temperatura foi subindo e já fazia bastante calor antes do início da prova, marcado para as 10h30. Não existia guarda-volumes e me vi obrigada a correr como estava. Largamos ao som de um fado, todos ao mesmo tempo, separados apenas por poucos metros de distância. Eu ainda subia a ponte quando fui alcançada pelos atletas dos 10 km. Perdi a noção de quantas vezes levei aquele maldito "totozinho" no calcanhar. Atravessada a Ponte, de onde o visual é realmente lindo, com a cidade toda diante dos nossos olhos, entramos na região portuária. De um lado as docas e os trilhos dos comboios, que passam a todo o momento fazendo um barulho ensurdecedor. Do outro, armazéns e uma infinidade de bares e boates, reflexo do projeto de revitalização da área. Apesar do horário, alguns ainda estavam em pleno funcionamento. Jovens bêbados pelas calçadas tropeçavam nas próprias pernas e nos ofereciam bebida. Um rapaz negro esmurrava uma porta quando foi detido pela polícia. Uma cena lamentável. Som alto, vidros embaçados e muita fumaça era o que se via e ouvia ao passar pela região.
A marcação só começou no quilômetro cinco, quando do primeiro posto de abastecimento. A água e o repositor energético eram distribuídas em garrafas de 710 ml. Alguns goles e lá iam praticamente cheias para o chão, num total desperdício. Pula daqui, desvia dali, muitas vezes buscando um local para pisar. Todo cuidado é pouco para não tropeçar naquele mar de garrafas. E enquanto segue-se por um lado lá vêm os primeiros colocados voltando pelo outro. Os quilômetros vão passando e onde está o retorno que não chega? Psicologicamente esse ir e vir pelo mesmo caminho nunca me fez bem.
O ponto alto da prova é a chegada ao Bairro Baixo, hoje o centro de Lisboa, erguido pelo Marquês de Pombal após o terremoto de 1755 que destruiu a cidade. Praça do Comércio, o Arco da Rua Augusta, o Elevador de Santa Justa, o Rossio, as Praças da Figueira e dos Restauradores. Um colírio para os olhos que, infelizmente, precisavam estar atentos também ao solo, de paralelepípedo e cortado por trilhos onde circulam os “elétricos”. E o calor que não dava trégua! Poucas vezes me senti tão incomodada. Conclui a prova com o tempo de 1:55:02, cansada, exausta e também um pouco frustrada. Eu queria ter feito melhor. Só fiquei mais conformada quando soube que o vencedor havia fechado o percurso com o tempo acima de 1h00, longe do recorde de 56 minutos pertencente ao Paul Tergat. O Marilson conquistara a quarta colocação. Também a elite havia sofrido.
Um pit stop de três dias em Madri bastou para que eu me apaixonasse por aquela cidade. Linda! Majestosa! Exuberante! Avenidas largas, prédios suntuosos, praças, fontes, monumentos, tudo muito bem cuidado e conservado e de extremo bom gosto. A cidade não pára. O termômetro marcava 0°C e as ruas estavam lotadas, com o povo transitando de um lado para o outro. Ainda pegamos um farelinho de neve, que nos fez rir à toa. Mas apesar da baixa temperatura e da umidade crescente ficou apenas nisso, frustrando nossas expectativas.
Praga foi uma surpresa. Fiquei absolutamente encantada. Uma outra viagem ao passado. Passado longínquo, dos séculos IX, X, XI e XII, de reis e rainhas, castelos, tesouros, traições, guerras, cavaleiros de armaduras, princesas, brasões, prisioneiros nas masmorras, objetos de tortura, pinturas e esculturas maravilhosas. Passado recente de invasão nazista, de perseguições, de extermínio do povo judeu, de ocupação soviética, de resistência estudantil, de execução de líderes e muito sofrimento. Hoje vivendo em plena democracia as ruas estão repletas de turistas, que ficam admirados com a beleza e riqueza da arquitetura dessa cidade tcheca.
A Meia Maratona aconteceu nessa atmosfera. Muitas pessoas nas ruas e um frio de congelar. A largada estava marcada para as 12h30, na Ponte Carlos IV, sobre o rio Vlatva, cartão postal da cidade. Meu objetivo era apenas cumprir tabela, como me orientou o Mestre Laurent, sem preocupação com o tempo de prova. Além do mais não havíamos feito sequer um trote, nossa alimentação estava longe do correto e, querendo conhecer tudo e aproveitar ao máximo a viagem, tínhamos descansado pouco e comprometido horas de sono. Mas vamos lá... somos guerreiras.
A largada foi ao som de uma linda ópera. A maior parte do trajeto margeava o rio e as rajadas de vento pareciam querer cortar nossa pele, insistindo em nos empurrar para trás. Foi uma luta sem trégua do início ao fim. Água e energético a cada 5 km e percurso alternando entre paralelepípedos, asfalto e calçamento. As ruas eram estreitas e em vários pontos precisávamos dividi-las com carros, ônibus elétricos e turistas. Mesmo com tantas dificuldades, mas diante de tanta beleza, entrei em estado de graça. Fiquei absolutamente concentrada e fui seguindo adiante.
Corri muito bem até o quilômetro 19, mas algo me fez voltar à realidade. Alguma coisa estava errada com as minhas panturrilhas. Algo que nunca havia sentido... cãibra. “Foi só impressão”, pensei. Procurei visualizar a linha de chegada. Faltava tão pouco!! Eu tinha gás, sentia-me inteira e estava pronta para quebrar um recorde pessoal. Aumentei o som do meu MP3 e, junto com ele, o tamanho da passada. Era a minha arrancada final. Mas senti novamente a contração nos músculos das panturrilhas, muito provavelmente em virtude do frio. “Por que não utilizei a roupa adequada e arrisquei correr de short?” “O que fazer agora?” Não queria deixar cair o ritmo, mas também não podia comprometer o final da corrida. Procurei desviar a atenção, olhando para o público que se aglomerava nas laterais da via. Minutos depois lá estavam as câimbras novamente. Lembrei-me da Lucélia, na Meia Maratona do Rio, que abandonou a prova há poucos metros do final. Fiquei amedrontada. Rezei. Segurei a dezena de Nossa Senhora de Fátima que trazia no pulso. Enchi-me de confiança e continuei. Fechei a prova com o tempo líquido de 1:54:44. Apesar de tudo, ainda foi o meu melhor tempo em uma Meia Maratona.
Essas corridas ficarão gravadas na minha mente. Nelas não aconteceram vitórias surpreendentes, quebras significativas de recordes, notícias fantásticas ou feitos espetaculares. Serão inesquecíveis simplesmente porque foram da mais total e absoluta superação. Mesmo naqueles momentos de dor e angústia jamais pensei em desistir. E foi aí que descobri mais dois ingredientes que preciso acrescentar ao rol de princípios básicos que regem minha vida de corredora: perseverança e fé.
Sylvia
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